Extensão: 370 metros
Bairro: Bello
Lei: 2946/2012
A riquíssima história da
Guerra do Contestado está intrinsecamente ligada à história e à figura do
“Monge” João Maria.
Além de muitos trabalhos
muito mais completos e pormenorizados do que este, sugerimos àqueles que
interessarem-se sobre uma abordagem mais geral sobre a questão do Contestado,
que busquem, nesta mesma obra, a descrição feita a respeito da “Rua do
Contestado”, onde abordamos de maneira mais ampla todo o contexto que ocorreu
em nossa cidade e nossa região por ocasião deste conflito.
A recuperação destes relatos
históricos é fundamental para que a população residente em nossa região tenha a
consciência plena dos fatos ocorridos aqui e que repercutem até os dias atuais.
Em relação ao Monge João
Maria, também chamado de “São João Maria”, é necessário frisar que existiram
dois personagens que adotaram o nome de João Maria, e que muitas vezes são
confundidos como um só.
O segundo monge,
surgido de forma tão misteriosa como o primeiro, ficou conhecido como João
Maria de Jesus e deliberadamente procurou identificar-se a João Maria
D’Agostini, com quem apresentava alguns pontos em comum.
Peregrinava sozinho, não
carregava pertence algum, nem pedia nada a ninguém. Se lhe ofereciam alimento,
aceitava apenas o que havia de mais frugal e em pequena quantidade. Não dormia
dentro da casa de ninguém, mas ao abrigo das árvores. Com sotaque espanhol,
conversava com todos, sem ostentação, sua figura era humilde, porém todos o
respeitavam e admiravam.
Houve um encontro entre Frei
Rogério Neuhaus e João Maria de Jesus, em Capão Alto, próximo a Lages, em 1897.
Conversam, trocam impressões, discutiram as escrituras e chegaram a
desentender-se.
Em um ambiente com extremas
carências, inclusive a assistência religiosa, o monge dava sermões,
interpretava as escrituras e batizava crianças, sendo muito bem aceito pela
população sertaneja. Frei Rogério, em nome da Igreja, não aceitava as
interpretações, especialmente apocalípticas, que eram feitas pelo monge e
chegou a recomendar que João Maria não mais batizasse as crianças, a não ser em
eminente perigo de vida. João Maria chega a participar da missa de Frei
Rogério, sem se reconciliarem, no entanto.
Presume-se que seu
verdadeiro nome, de origem síria, seria Atanás Marcaf e ele mesmo teria revelado
a Frei Rogério que: “Eu nasci no mar –
criei-me em Buenos Aires, e faz onze anos que tive um sonho, percebendo nele
claramente que devia caminhar pelo mundo durante catorze anos, sem comer carne
nas quartas-feiras, sextas-feiras e sábados, e sem pousar na casa de ninguém.
Vi-o claramente”.
Além das rezas, batismos e
peregrinações, também utilizava as águas e receitava ervas para alívio dos
males. A mais utilizada era a “vassourinha do campo”, conhecida até hoje como
“vassourinha de São João Maria”.
Seu posicionamento político
era claramente contrário à república, acusando-a de responsável pelos males que
estavam ocorrendo, atingindo a toda a população. Tais posicionamentos
encontraram eco nos sentimentos da população cabocla, que via com nostalgia a
monarquia, especialmente devido à expulsão de suas terras, com a situação das
“terras devolutas”.
Fazia profecias, que depois
foram claramente identificadas como realidades pela população, como a de que
surgiriam linhas de burros pretos, de
ferro, carregando pessoal; vinda de gafanhotos de ferro, que ia ocorrer a
guerra; que viriam cercas de espinho, entre muitas outras.
As fotografias,
imagens e estampas que existem são deste segundo monge, João Maria de Jesus.
Este sim, apesar de inspirado no primeiro, e que muitas vezes é confundido e
interpretado como se fosse uma só pessoa, é que é considerado o santo, são
deste os milagres que se contam e as lendas que se formaram.
O desaparecimento de João
Maria de Jesus, em 1908, está envolto em mistérios. Como seguidamente aparecia
e desaparecia de locais sem nenhum aviso prévio, ninguém se espantou quando ele
partiu. Em uma destas partidas, não mais voltou a ser visto.
De si só deixou para a
posteridade a sua palavra amiga, os seus conselhos e algumas profecias, além do
exemplo de uma vida de renúncias. No entanto, em torno de si, despontaram as
lendas, tão viva e tão pura como nos primeiros dias.
A contextualização do nome
“Monge João Maria”, portanto, engloba a figura destes dois indivíduos, tão
importantes e simbólicos na cultura cabocla de nossa região.
