Rua Monge João Maria

Extensão: 370 metros
Bairro: Bello
Lei: 2946/2012


A riquíssima história da Guerra do Contestado está intrinsecamente ligada à história e à figura do “Monge” João Maria.

Além de muitos trabalhos muito mais completos e pormenorizados do que este, sugerimos àqueles que interessarem-se sobre uma abordagem mais geral sobre a questão do Contestado, que busquem, nesta mesma obra, a descrição feita a respeito da “Rua do Contestado”, onde abordamos de maneira mais ampla todo o contexto que ocorreu em nossa cidade e nossa região por ocasião deste conflito.

A recuperação destes relatos históricos é fundamental para que a população residente em nossa região tenha a consciência plena dos fatos ocorridos aqui e que repercutem até os dias atuais.

Em relação ao Monge João Maria, também chamado de “São João Maria”, é necessário frisar que existiram dois personagens que adotaram o nome de João Maria, e que muitas vezes são confundidos como um só.

O primeiro, João Maria D’Agostini (ou Agostinho), imigrante italiano, que peregrinou por todo o Brasil, especialmente na região sul, atendendo doentes de 1844 a 1870. Fazia questão de viver uma vida extremamente humilde, e sua ética e forma de viver arrebanhou milhares de crentes, reforçando o messianismo coletivo. Não teve nenhuma participação na Guerra, mas sua figura e lembrança seria continuamente evocada.

O segundo monge, surgido de forma tão misteriosa como o primeiro, ficou conhecido como João Maria de Jesus e deliberadamente procurou identificar-se a João Maria D’Agostini, com quem apresentava alguns pontos em comum.

Peregrinava sozinho, não carregava pertence algum, nem pedia nada a ninguém. Se lhe ofereciam alimento, aceitava apenas o que havia de mais frugal e em pequena quantidade. Não dormia dentro da casa de ninguém, mas ao abrigo das árvores. Com sotaque espanhol, conversava com todos, sem ostentação, sua figura era humilde, porém todos o respeitavam e admiravam.

Houve um encontro entre Frei Rogério Neuhaus e João Maria de Jesus, em Capão Alto, próximo a Lages, em 1897. Conversam, trocam impressões, discutiram as escrituras e chegaram a desentender-se.

Em um ambiente com extremas carências, inclusive a assistência religiosa, o monge dava sermões, interpretava as escrituras e batizava crianças, sendo muito bem aceito pela população sertaneja. Frei Rogério, em nome da Igreja, não aceitava as interpretações, especialmente apocalípticas, que eram feitas pelo monge e chegou a recomendar que João Maria não mais batizasse as crianças, a não ser em eminente perigo de vida. João Maria chega a participar da missa de Frei Rogério, sem se reconciliarem, no entanto.

Presume-se que seu verdadeiro nome, de origem síria, seria Atanás Marcaf e ele mesmo teria revelado a Frei Rogério que: “Eu nasci no mar – criei-me em Buenos Aires, e faz onze anos que tive um sonho, percebendo nele claramente que devia caminhar pelo mundo durante catorze anos, sem comer carne nas quartas-feiras, sextas-feiras e sábados, e sem pousar na casa de ninguém. Vi-o claramente”.

Além das rezas, batismos e peregrinações, também utilizava as águas e receitava ervas para alívio dos males. A mais utilizada era a “vassourinha do campo”, conhecida até hoje como “vassourinha de São João Maria”.

Seu posicionamento político era claramente contrário à república, acusando-a de responsável pelos males que estavam ocorrendo, atingindo a toda a população. Tais posicionamentos encontraram eco nos sentimentos da população cabocla, que via com nostalgia a monarquia, especialmente devido à expulsão de suas terras, com a situação das “terras devolutas”.

Fazia profecias, que depois foram claramente identificadas como realidades pela população, como a de que surgiriam linhas de burros pretos, de ferro, carregando pessoal; vinda de gafanhotos de ferro, que ia ocorrer a guerra; que viriam cercas de espinho, entre muitas outras.

As fotografias, imagens e estampas que existem são deste segundo monge, João Maria de Jesus. Este sim, apesar de inspirado no primeiro, e que muitas vezes é confundido e interpretado como se fosse uma só pessoa, é que é considerado o santo, são deste os milagres que se contam e as lendas que se formaram.

O desaparecimento de João Maria de Jesus, em 1908, está envolto em mistérios. Como seguidamente aparecia e desaparecia de locais sem nenhum aviso prévio, ninguém se espantou quando ele partiu. Em uma destas partidas, não mais voltou a ser visto.

De si só deixou para a posteridade a sua palavra amiga, os seus conselhos e algumas profecias, além do exemplo de uma vida de renúncias. No entanto, em torno de si, despontaram as lendas, tão viva e tão pura como nos primeiros dias.
A contextualização do nome “Monge João Maria”, portanto, engloba a figura destes dois indivíduos, tão importantes e simbólicos na cultura cabocla de nossa região.